sábado, 19 de dezembro de 2015

Malformações levam médicos a ampliarem discussão sobre zika congênita

Alexandre Gondim/JC Imagem / Maria Luísa, de 5 meses, passa por uma série de exames para avaliar o grau comprometimento ocular

Alexandre Gondim/JC Imagem

Maria Luísa, de 5 meses, passa por uma série de exames para avaliar o grau comprometimento ocular


Além da microcefalia, médicos passam a observar outras malformações que possivelmente estão associadas à exposição ao zika na gestação, principalmente se a infecção acontece no período embrionário, que vai da segunda a oitava semana de gravidez. Entre elas, estão deformidades dos membros inferiores e superiores. A partir dessa percepção, um grupo de especialistas passa a ampliar o olhar para as complicações causadas por um vírus que, só no Brasil, deve ter infectado até 1,4 milhão de pessoas. “Não há dúvidas de que a microcefalia é a complicação mais expressiva da infecção pelo zika, mas precisamos expandir a discussão. Por isso, começamos a pensar na denominação de zika congênita”, diz o médico Carlos Brito, integrante do Comitê Técnico de Arboviroses do Ministério da Saúde. 
Ao lado de especialistas de outros Estados, ele tem se debruçado em investigar outras malformações associadas à zika. “Quando se pensa nas outras infecções congênitas, como toxoplasmose, rubéola e citomegalovírus, a gente sabe que não existe uma só alteração. E por motivos óbvios, não tem sido diferente com o zika”, acredita Carlos Brito. Ele explica que, a partir do momento em que o vírus entra no organismo, ele pode interferir na fase embriogênica, de formação de todos os tecidos do feto. “Isso pode interferir não só no sistema nervoso central, mas também no sistema osteomuscular, na audição e na visão. O risco para essas múltiplas complicações depende do período da gestação em que ocorreu exposição à infecção pelo zika.” 
A secretária Gabriela Falcão, 30 anos, levou ontem a filha, Maria Júlia, de 1 mês e 6 dias, para uma avaliação oftalmológica promovida pelo Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope) para os bebês com microcefalia. A menina passou por uma série de exames para investigar a saúde ocular. “Vim de Paulo Afonso (Bahia) para receber uma melhor assistência aqui no Recife. Lá, tive sintomas de zika bem no começo da gestação. Estava com dois meses”, contou Gabriela, que tem se dedicado a cumprir a agenda de exames com a filha, que usa uma aplicação de gesso nas pernas para corrigir a malformação nos membros inferiores. 
Coordenadora da Unidade Neonatal da Maternidade do Hospital Santa Joana, a médica Jucille Meneses ressalta que as complicações osteomusculares observadas nos bebês com microcefalia provavelmente são secundárias de alteração do tubo neural que fazem com que os membros não se desenvolvam da forma correta. “Não há mais incertezas sobre a relação entre microcefalia e zika. Do mesmo jeito que o vírus pode causar alteração do sistema nervoso, que pode se manifestar com a cabeça pequena do recém-nascido, ainda há a hipótese de que o zika leva à malformação osteomuscular, até mesmo com comprometimento do quadril”, explica Jucille, que também percebe as alterações oculares nos bebês com microcefalia. 
Foi durante o teste do olhinho, realizado após duas semanas do nascimento, que a menina Maria Luísa, de 5 meses, teve o diagnóstico de baixa visão, segundo conta sua mãe, a funcionária pública Márcia Silva, 31. Durante um ultrassom realizado na 28ª semana de gestação, ela recebeu a notícia de que a filha poderia apresentar algum comprometimento cerebral. O diagnóstico de microcefalia veio logo após o nascimento. “Ela é sorridente e esperta. E até balbucia. A minha maior queixa é realmente a baixa visão que ela tem. Vamos agora estimular o máximo que pudermos”, conclui Márcia. 

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