sábado, 22 de abril de 2017

Pesquisa revela que machismo não é coisa só de homem


Levantamento feito pela Uninassau revela que, em determinadas situações, a mulher reproduz uma visão machista, mesmo sendo vítima desse comportamento
Jovem foi assediada e terminou perdendo o emprego. Pesquisa mostra que mulheres são as maiores vítimas de assédio sexual / Guga Matos/JC Imagem
Jovem foi assediada e terminou perdendo o emprego. Pesquisa mostra que mulheres são as maiores vítimas de assédio sexual
Guga Matos/JC Imagem
Ciara Carvalho
ciaracalves@gmail.com
Se depender da percepção que as pessoas têm de si, o machismo até parece ser um problema já superado pela sociedade. O Instituto de Pesquisa Uninassau foi às ruas do Recife e perguntou: “Você se considera uma pessoa machista?” A resposta impressiona. Apenas 10% dos homens e mulheres entrevistados se reconheceram nessa condição. Mas, entre a percepção e a realidade, há um longo caminho a ser trilhado. E a própria pesquisa traz dados reveladores, no sentido de mostrar situações cotidianas nas quais o machismo, de uma forma ou de outra, se revela. E o que é mais curioso: ele é compartilhado tanto na visão de homens quanto de mulheres.



Os pesquisadores propuseram frases para que os entrevistados se posicionassem contra ou a favor. Diante, por exemplo, da afirmação de que “existem mulheres que provocam o homem sexualmente de modo proposital”, 78% dos homens concordaram com a frase. O percentual entre as mulheres também foi alto: 72%. Na mesma linha, 49% dos homens ouvidos endossaram a frase “As mulheres não deveriam usar roupas curtas para apanhar os filhos na escola”. Entre as mulheres, a avaliação é praticamente a mesma: 45% disseram concordar com a afirmação. Quando o assunto é denúncia de assédio sexual, 39% dos homens concordam que as mulheres exageram na notificação. Essa é a mesma percepção para 30% das mulheres.

Outro dado que chama a atenção: para 54% dos homens consultados “as mulheres, às vezes, são responsáveis por fazer o homem perder a cabeça e ser agressivo”. Embora menor, o percentual de mulheres que pensam dessa forma ainda é alto: 43%. A prática de assédio é, para 45% dos homens, geralmente provocada pela própria mulher. Quase 30% das mulheres também concordaram com essa afirmação. A experiência de Aline Silveira, uma das fundadoras do Coletivo Mete a Colher, mostra que essa visão machista entre as mulheres é um traço cultural muito mais forte do que se imagina. “A gente recebe muitos depoimentos de mulheres que, mesmo sem perceber, reafirmam esse comportamento. Não é fácil desconstruir esse discurso, principalmente numa sociedade colonial, como a pernambucana”, diz.
Justamente por ser reflexo de uma forte construção cultural, o machismo precisa ser discutido desde cedo. E dentro de casa. Aline Silveira ressalta a importância, por exemplo, de que as novas gerações já sejam educadas de uma forma diferente, para que a questão de gênero seja tratada com igualdade e sem preconceito. “Fácil não é. A própria pesquisa mostra que as pessoas não se reconhecem machistas. É como o racismo. Ninguém abre a boca para dizer que é racista. Mas, na prática, a realidade é bem diferente do discurso.” Para a secretária estadual da Mulher, Silvia Cordeiro, os dados apontados pelo levantamento ajudam a colocar a sociedade diante dela própria. “As miudezas revelam as contradições. Isso é muito importante para avançarmos e enxergarmos o machismo como de fato ele é.”


A pesquisa detecta também avanços. Quando questionados sobre relacionamentos de mulheres maduras com homens mais jovens, 75% do universo masculino concordam que “não existe nada demais” nesse tipo de relação. Praticamente a mesma avaliação feita entre as mulheres (74%). Sobre a traição feminina durante o casamento, 57,9% das pessoas ouvidas afirmaram que o melhor a fazer é se separar. Quando a pergunta é sobre a traição masculina, o percentual é quase igual: 58%.

SEM DIREITO DE DIZER NÃO

Ainda muito jovem, Juliana (nome fictício) sentiu na pele o que é ser mulher num ambiente de trabalho machista. Com apenas 19 anos, em início de carreira, ela se viu bombardeada por mensagens telefônicas enviadas por companheiros de trabalho com quem ela não havia sequer compartilhado o número. Na fábrica, onde trabalhava, era considerado comum os chefes sempre emendarem elogios quanto à beleza em meio a conversas estritamente profissionais. Quando as reações da jovem foram ficando mais fortes, ela terminou sendo demitida. “Tenho certeza que minha demissão foi motivada pelo fato de eu não mais aceitar, tranquilamente, as cantadas e os flertes. Não nos é dada sequer a chance de se insurgir. É como se a gente não tivesse o direito de dizer não”, avalia.
Se entre os casos de assédio, a desigualdade é gritante, quando parte para a violência física, a situação é ainda mais grave. Nada menos que 72% das pessoas entrevistadas afirmaram conhecer mulheres que apanham do companheiro, seja marido ou namorado. Um dado que escancara uma questão urgente: precisamos falar (muito mais) de machismo.

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