quarta-feira, 9 de março de 2016

Naná Vasconcelos fica na memória do pernambucano como o mestre dos mestres dos maracatus

Percussionista Naná Vasconcelos ficou marcado na memória do pernambucano como o mestre dos mestres dos maracatus / Foto: Guga Matos/JC Imagem

Percussionista Naná Vasconcelos ficou marcado na memória do pernambucano como o mestre dos mestres dos maracatus

Foto: Guga Matos/JC Imagem

José Teles
teles@jc.com.br
O percussionista Naná Vasconcelos ficou marcado na memória do pernambucano como o mestre dos mestres dos maracatus, que durante 15 anos comandou a abertura do Carnaval do Recife, levando 400 batuqueiros para o Marco Zero. Para por a ideia em prática, ele teve que vencer resistências. Primeiro, das nações de maracatu, que tiveram que deixar as diferenças de lado, e de autoridades competentes, que pretendiam estender à abertura do Carnaval o festival de MPB que presente nos polos espalhados pela cidade. Em 2015, ele revelou que pretendiam tirar os batuqueiros do Marco Zero na noite em começa oficialmente a folia da capital pernambucana. Pouco antes do Carnaval de 2016, novamente denunciou um boicote, desta vez a ele, que não foi convidado para o anúncio da programação. A tradição, no entanto, foi mantida.
Naná voltou definitivamente a morar no Recife em 1999. Casou com Patrícia, foi pai de Luz Morena, comprou uma casa confortável no Rosarinho e fez da cidade o porto de onde zarpava para o mundo. Seu espaço lá fora estava garantido por oito anos (sendo sete deles seguidos, de 1984 a 1990) como Melhor Percussionista na lista anual da DownBeat – a mais prestigiada publicação dedicada ao jazz. Numa matéria na Modern Drummer, o articulista enumera 59 nomes de músicos com os quais Naná Vasconcelos gravou. A matéria é de 2002, desde então ele acumulou muito mais. Na sua discografia, há parcerias com o guitarrista Pat Metheny, o blueseiro B.B. King, Talking Heads, Aztec Camera, Laurie Anderson, Arild Andersen, Chaka Khan, Ambitius Lovers, Paul Simon, Jan Gabarek, Ryuichi Sakamoto, Gipsy Kings, Codona (trio formado por ele, o trompetista Don Cherry e o tecladista Collin Walcott), e Gato Barbieri, com quem saiu do Brasil em 1970, e trabalhou na trilha sonora de 'O Último Tango em Paris', de Bernardo Bertolucci. No Brasil, a lista inclui, além de Milton Nascimento, nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte e Mundo Livre S/A, por exemplo.
Na verdade, Naná começou sua carreira internacional no começo dos anos 60, quando viajou para Portugal com o Quarteto Yansã, com pouco dinheiro, e nenhum show marcado, sem conhecer ninguém em terras lusitanas. “A gente estava meio perdido em Lisboa, e encontrei na rua Agostinho dos Santos, que eu conhecia da TV Jornal, onde acompanhava cantores do Sul do País que vinham cantar no Recife”, relembrou. Na época um dos cantores mais populares brasileiros, Agostinho dos Santos acolheu os recifenses, vendeu shows com o quarteto e gravou com ele, em discos avulsos (do tamanho de um LP, porém com menos músicas, e três furos). Uma trinca desses discos, reunidos em um LP, foi lançado pela Rozenblit, com o selo Tecla. Naná, no entanto, só gravaria no Recife quando voltou a morar na cidade. Quando adolescente chegou a tocar percussão numa gravação do cubano Bienvenido Granda, que gravou na gravadora pernambucana.
O câncer que o vitimou foi descoberto num exame de rotina. Os médicos decidiram interná-lo imediatamente. No hospital, enquanto se submetia a uma bateria de exames, ele ligou para o amigo Egberto Gismonti, com quem dividiu um Grammy pelo disco 'Dança das Cabeças', em 1977. Sugeriu que voltassem a gravar juntos: “Disse que a gente precisava fazer um disco com uma sinfônica pra deixar aí, um disco assim nunca fica velho. Ele falou: pronto é hora de fazer, estou indo para ai agora. Eu falei, Egberto deixe ao menos eu voltar pra casa”, contou Naná, acrescentando que já estava com três temas prontos. Durante a enfermidade, não se afastava e um gravador, onde ia registrando as ideias que lhe surgiam. E um dos seus planos imediatos era gravar com grupo recifense Batucafro, um termo de importância especial para ele: “O meu trabalho de percussão eu chamo de batucafro. Não é samba, não é coco, não é maracatu, e é tudo isto, é batucafro.”

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