segunda-feira, 11 de julho de 2016

A MULHER E A LEI


“Aprendi que é melhor sofrer do que viver sozinha”
Por Gleide Ângelo
delegada gleide angeloDiariamente, recebo muitas mensagens por e-mail de mulheres vítimas de violência doméstica narrando suas histórias de dor e sofrimento. Mas, entre diversas mensagens, uma me chamou atenção pela justificativa que a remetente encontrou para continuar em uma relação de vinte e três anos sofrendo os mais diversos tipos de agressões.
A mulher, que chamarei pelo nome fictício de Aparecida, narrou a seguinte história: “Sou casada há 23 anos e já sofri muito na vida desde pequena. Os meus avós se separaram e minha avó chorava muito por causa do abandono. Quando eu tinha 12 anos, meu pai abandonou nossa casa e fiquei com a minha mãe, passando por diversos tipos de dificuldades. Eu vi de perto o sofrimento de uma mulher que vive sozinha, sem o marido, por isso prefiro aguentar tudo o que meu marido faz comigo, para não viver sozinha e abandonada como minha avó e minha mãe”.
E Aparecida continua: “Tenho dois filhos, mas sou muito infeliz. Meu marido me trai, chega em casa embriagado e me agride. Ele diz que tem mulheres fora porque eu sou velha, gorda e burra. Ainda diz que se eu estiver achando ruim, que pegue as minhas coisas e vá embora, porque isso será um favor que estarei fazendo a ele. Mas eu não vou embora, porque sei que ele me ama e não vive sem mim. Tudo o que ele diz é da boca para fora. E já aprendi a viver com ele, é só aguentar tudo calada, sem reclamar, que ele não me bate. É melhor viver assim do que ser abandonada como minha mãe e minha avó e passar necessidade sozinha”.
Confesso que essa mensagem me chamou bastante atenção, porque o que podemos ver claramente é uma mulher que viveu em um ambiente familiar de violência desde a infância. Vivenciou o sofrimento da mãe e da avó e criou a falsa percepção de que elas só sofreram porque os maridos foram embora. Por isso, na imaginação dela, se a mãe e a avó tivessem vivido eternamente com os maridos, seriam felizes para sempre.
Na realidade, quando Aparecida me escreveu essa mensagem, ela estava fazendo um pedido de socorro. Ela sabe que tem algo de errado, mas não consegue enxergar o erro. Na visão dela, basta ficar quieta, aguentando “tudo” e o marido não vai agredi-la. Infelizmente, isso é o que ocorre com muitas mulheres que crescerem ouvindo de suas mães ou avós que a mulher tem que aguentar tudo, que a mulher não deve se separar e viver sozinha, que é melhor sofrer do que ficar só. Dizer que o marido a ama e não vive sem ela, é a forma que Aparecida encontrou para se justificar e continuar nessa relação doentia.
Observamos que Aparecida está precisando de ajuda para mudar de vida. Ela não tem o apoio da mãe e da avó, que acham que a mulher tem que aguentar tudo, mesmo à custa de muito sofrimento. Hoje, sabemos que existe uma Rede de Enfrentamento que ajuda a mulher vitima de violência a mudar de vida, a superar a dor. Por estar sozinha, sem apoio da família, Aparecida precisa buscar ajuda nos Centros de Referência da Mulher, onde poderá encontrar uma equipe técnica com profissionais especializados (psicólogos, assistentes sociais, advogados) à disposição da mulher vítima de violência doméstica.
Com o tratamento psicológico, aparecida irá desconstruir tudo o que aprendeu desde a infância sobre o papel da mulher na sociedade. Ela vai enxergar que a mulher tem os mesmos direitos que o homem e deve ser respeitada. Em qualquer tipo de relação, seja profissional ou afetiva, tem de haver o respeito. Quando termina o respeito, iniciam as agressões físicas, morais e psicológicas.
No caso de Aparecida, verificamos com clareza que o marido não a ama e não a respeita. Quando um homem diz para uma mulher que ela é gorda, feia, burra e se for embora será um favor, ele diz que não a respeita. E, se ela continuar com ele, estará concordando com todas as agressões de que é vítima. O que existe nesse caso não é amor, mas desamor.
Por isso, depois de 27 anos de sofrimento, Aparecida quer ajuda. O que posso dizer é que ela procure o Centro de Referência do município em que reside e inicie um atendimento. Com isso, ela terá forças para denunciar o marido e buscar a proteção desejada. Só assim, depois de dar o primeiro passo, ela criará forças e transformará sua vida.
Nós ficamos indignadas com o sofrimento de muitas mulheres, mas temos que ter o entendimento de que muitas estão emocionalmente abaladas e não conseguem buscar forças para reagir sozinhas. Muitas não têm apoio da família, por isso os amigos e vizinhos precisam ficar atentos quando virem uma mulher sofrer violência doméstica. Um conselho ou uma orientação pode fortalecer a mulher e tirá-la da dor e do sofrimento, além de evitar crimes mais graves como o feminicídio.
Se você está passando pelo mesmo problema de Aparecida, fale da sua dor, divida com um amigo ou com um vizinho. Escute o que ele tem para lhe dizer e busque ajuda. Vá a uma Delegacia da Mulher, ao Centro de Referência do seu município ou ligue para o 180. O seu problema tem solução, busque informações sobre os passos necessários para que você supere essa dor. Para tantas Aparecidas que existem em nossa sociedade, eu aconselho: dê o primeiro passo e denuncie!
Você não está sozinha, veja onde procurar ajuda:
– Centro de Referência Clarice Lispector: (81) 3355.3008 / 3009 / 3010
– Centro de Referência da Mulher Maristela Just: (81) 3468.2485
– Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon: 0800.281.2008
– Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher: (81) 3524.9107
– Centro de Referência Dona Amarina: (81) 3551.2505
– Central de Atendimento Cidadã Pernambucana: 0800.281.8187
– Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal: 180
– Polícia: 190 (se a violência estiver ocorrendo)
Gleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com
(Conteúdo extraído do NE-10)

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