Demora para tirar a CNH, escassez de vagas, dificuldades no atendimento e concentração de ações no Recife aumentam desgaste do órgão e podem virar um problema político para Raquel Lyra
O DETRAN-PE pode estar se transformando em um dos maiores calos políticos do Governo Raquel Lyra. E não é por falta de aviso.
Para parte da população pernambucana, principalmente no interior, procurar os serviços do órgão virou sinônimo de espera, dificuldade e incerteza.
São reclamações envolvendo atendimento, demora nos processos de habilitação, dificuldade para conseguir vagas para determinadas etapas e cidadãos que precisam acompanhar constantemente o sistema na esperança de finalmente avançar no processo.
Enquanto isso, fica uma pergunta que precisa ser feita ao Governo de Pernambuco:
Por que tantas ações especiais e mutirões chegam ao Recife enquanto inúmeras cidades menores continuam esperando soluções?
TIRAR UMA CNH NÃO PODE VIRAR UMA MARATONA
A primeira habilitação representa muito mais do que o direito de dirigir.
Para milhares de pernambucanos, principalmente jovens e trabalhadores do interior, a CNH significa emprego, renda e oportunidade.
Mas o que deveria ser um processo organizado pode se transformar numa longa espera quando faltam vagas ou quando uma etapa demora a ser realizada.
O candidato conclui uma fase e depois precisa aguardar a próxima. Quando finalmente está preparado para realizar prova ou procedimento, pode enfrentar dificuldade para encontrar disponibilidade.
E o tempo vai passando.
Semanas podem virar meses.
Quem paga essa conta é o cidadão.
A ESCASSEZ DE VAGAS VIROU UM DOS PRINCIPAIS PROBLEMAS
O Governo precisa olhar com atenção para a disponibilidade de atendimento no interior.
Não basta existir um sistema de agendamento se a quantidade de vagas não acompanha a demanda.
Quando uma vaga se transforma quase em artigo de luxo, alguma coisa está errada.
O cidadão não deveria precisar disputar atendimento público como se estivesse tentando comprar ingresso para um grande evento.
Serviço público precisa ter planejamento e capacidade para atender à população.
Se a demanda aumentou, aumentem-se as vagas.
Se faltam examinadores, servidores ou estrutura, que o Estado faça os investimentos necessários.
O que não pode continuar é simplesmente transferir para o cidadão o peso da deficiência administrativa.
RECIFE RECEBE AÇÕES. E O INTERIOR?
Outro ponto que merece uma cobrança firme é a distribuição das ações especiais do DETRAN.
Mutirões e operações extraordinárias são importantes. Toda iniciativa que reduza filas merece reconhecimento.
Mas Pernambuco não termina na Região Metropolitana.
Existe Pernambuco depois do Recife.
Onde estão os grandes mutirões para atender quem está no Agreste?
Onde estão as ações reforçadas no Sertão?
Onde estão as operações para desafogar as CIRETRANs das cidades menores?
Onde estão as vagas extras para candidatos que estão esperando há meses?
Santa Cruz do Capibaribe, Caruaru, Surubim, Belo Jardim, Arcoverde e tantas outras cidades atendem populações próprias e ainda recebem diariamente moradores de municípios vizinhos.
O interior também paga impostos.
O interior também tem pressa.
O CIDADÃO NÃO QUER DESCULPA. QUER ATENDIMENTO
Quem precisa da CNH para trabalhar não quer ouvir eternamente que faltam vagas.
Quem precisa resolver um problema relacionado ao veículo não quer enfrentar uma peregrinação.
Quem procura uma unidade do DETRAN quer ser atendido com respeito, orientação e eficiência.
E também existem reclamações sobre a qualidade do atendimento. Evidentemente, não se pode generalizar o trabalho de todos os servidores, muitos dos quais enfrentam sobrecarga e limitações estruturais.
Mas quando reclamações se repetem, a direção do órgão precisa ouvir.
Não adianta melhorar propaganda se a experiência do cidadão continua ruim.
RAQUEL LYRA PRECISA OLHAR PARA O INTERIOR
Esse problema já ultrapassou as paredes do DETRAN.
Ele começa a chegar politicamente ao Governo do Estado.
Raquel Lyra precisa determinar uma verdadeira força-tarefa para o interior de Pernambuco.
É necessário ampliar vagas, descentralizar ações, realizar mutirões regionais, reforçar as CIRETRANs, melhorar os sistemas e estabelecer um calendário permanente para atender a demanda reprimida.
E não estamos falando de favor.
Estamos falando de obrigação do Estado.
Pernambuco possui 184 municípios e Fernando de Noronha. A população que mora distante da capital não pode ser tratada como pernambucana de segunda categoria.
Quando existe uma grande ação no Recife, ela é positiva.
Mas é preciso perguntar:
quando chegará a vez das cidades pequenas?
UM PROBLEMA ADMINISTRATIVO QUE PODE CHEGAR ÀS URNAS
Raquel Lyra precisa entender a dimensão política dessa insatisfação.
Uma eleição equilibrada pode ser decidida nos detalhes.
Um aluno que espera meses pela CNH é um eleitor.
O pai e a mãe dele também são.
O instrutor prejudicado pela falta de vagas é eleitor.
Os familiares dele também.
O trabalhador que depende da habilitação para conseguir emprego é eleitor.
E todos eles sabem exatamente a quem pertence o DETRAN: ao Governo do Estado.
Por isso, existe um risco político evidente.
A governadora pode entregar estradas, escolas, abastecimento de água e grandes obras. Tudo isso tem importância.
Mas o cidadão também avalia um governo pela experiência que vive no balcão do serviço público.
Não adianta o governo chegar perto do cidadão através das obras e o DETRAN afastá-lo através da burocracia.
O alerta está dado.
O interior não está pedindo privilégio.
Está exigindo igualdade.
O pernambucano de Recife merece atendimento digno.
O pernambucano do Agreste também.
O pernambucano do Sertão também.
O pernambucano das pequenas cidades também.
Se o Governo Raquel Lyra não compreender isso e não promover mudanças concretas no DETRAN-PE, poderá descobrir nas urnas que um serviço público ruim também tem preço político.